curva de incendio por sprinklers automaticos
06/08/2025

Definição da curva de incêndio com sprinklers automáticos: a importância de considerar a condição de projeto mais exigente

Introdução

As simulações de incêndio em ambientes com sprinklers automáticos frequentemente simplificam a curva de desenvolvimento do fogo assumindo que, após a activação do primeiro sprinkler, a potência calorífica se “estabiliza” ou diminui drasticamente. No entanto, a experiência e a literatura técnica sobre protecção contra incêndios mostram que em muitos cenários reais o incêndio pode continuar a crescer e, consequentemente, activar mais sprinklers, gerando maiores volumes de fumos e afectando a visibilidade ou toxicidade.

Isto torna crítico que, nos estudos de desempenho de controlo de fumos (SCTEH), seja avaliado o “pior cenário credível”, ou seja, aquele em que o fogo atinge um tamanho suficiente para exigir o desdobramento dos sprinklers tal como foram concebidos.

O presente artigo resume as reflexões apresentadas num estudo mais extenso, cujo objectivo fundamental é consciencializar os profissionais de segurança contra incêndios e os responsáveis pelo design de sistemas de controlo de fumos sobre a importância de representar de forma adequada a curva de fogo na presença de sprinklers.

O desafio de definir a curva de fogo

Quando se modela um incêndio com métodos de engenharia (por exemplo, com FDS), definem-se múltiplos parâmetros: tipo de combustível, poder calorífico, potência máxima específica, fracção radiada, entre outros. Mas existe um dado especialmente influente no comportamento da simulação: a forma da curva de desenvolvimento do fogo (Heat Release Rate ou HRR em função do tempo).

Em instalações sem sprinklers, recorre-se a curvas empíricas ou normalizadas (como as curvas de crescimento lento, médio, rápido ou ultra-rápido) para representar a fase de crescimento da potência calorífica no tempo e o crescimento detém-se por limitação na quantidade de combustível presente ou ventilação e reduz-se por esgotamento do combustível.

Abordagens diferentes para instalações com sprinklers:

  • Critérios que “detêm” a curva num valor fixo de potência calorífica (por exemplo, na activação de um número de sprinklers).
  • Critérios que permitem o fogo decrescer de forma abrupta após a activação do primeiro sprinkler.
  • Modelações que incluem de forma explícita o efeito da água, simulando as características do padrão de descarga, com ou sem a introdução de um coeficiente de extinção que reduza a velocidade de combustão no foco do incêndio.

Cada método envolve pressupostos que podem distorcer a realidade se não forem aplicados com rigor. Em especial, ignorar ou subestimar a possibilidade de um fogo que supere certos megawatts (e com isso active a área de operação de design nos sprinklers) pode levar a conclusões erróneas sobre a visibilidade ou as condições de evacuação. Para aprofundar estes aspectos técnicos, recomendamos também consultar o nosso artigo sobre o novo RSCIEI.

Por que é crítico contemplar a máxima potência credível do incêndio?

1. Mais potência = mais produtos de combustão
Embora a temperatura da camada de fumos possa limitar-se devido à activação de vários sprinklers, a massa de combustível consumida continua a aumentar proporcionalmente com o combustível que se queima. Isto implica uma maior produção de fumos, mais obscurecimento e um incremento da toxicidade para maiores potências.

2. Maior número de sprinklers activados
Um único sprinkler não costuma fornecer a densidade de água necessária para controlar incêndios de certa envergadura. Portanto, se o fogo cresce até ao ponto de implicar vários sprinklers (muitos designs contemplam uma área de operação com dezenas deles), geram-se condições de fumos mais desfavoráveis para a evacuação e o controlo de danos.

3. Pior cenário razoável
Numa análise de desempenho, o “pior” cenário deve ser credível e estar dentro das hipóteses de design. Se o sistema está calculado para uma área de operação determinada, nada impede que num incêndio real se active todo esse conjunto de sprinklers. Portanto, se este caso não for modelado na simulação, podemos subestimar as condições finais de fumos.

Métodos de referência e as suas limitações

Existem várias guias e normativas que propõem distintas abordagens para “cortar” ou “estabilizar” a curva de incêndio quando os sprinklers entram em acção. A título de exemplo:

Principais metodologias:

  • Lund (Suécia, Dinamarca, Noruega): Após a activação do primeiro sprinkler, se a potência inicial for menor que 5 MW, permite-se reduzir a curva para 1/3 desse valor decorrido um minuto. Para fogos maiores de 5 MW, a curva permanece constante.
  • ISO 16733-1: A potência assume-se constante na activação “do sistema de sprinklers”. A nuance reside em quando se considera que o sistema “está activo”: no primeiro sprinkler ou quando se atinge uma densidade efectiva de descarga?
  • NFPA 204: Recomenda basear o critério na activação de um “número conservador de sprinklers”, normalmente tendo em conta os sprinklers num raio 1,5 vezes a distância entre eles e o foco do incêndio.
  • UNE EN 12845: Projecta o sistema de sprinklers com base numa densidade e numa área de operação expressa como número de sprinklers activados.

A principal limitação dos critérios baseados unicamente na activação de um ou poucos sprinklers é que ignoram o efeito acumulado de vários sprinklers abertos e a possível evolução do incêndio até à máxima capacidade de design do sistema. Sem incluir a descarga de água na simulação (e o consequente arrefecimento real dos gases), os tempos de activação de sucessivos sprinklers depois do primeiro resultam fictícios, subestimando-se a potência final do incêndio.

Exemplos de simulação e conclusões práticas

Diversas simulações realizadas sobre o mesmo cenário de armazenamento (referência FM Global a 9 m de altura, com sprinklers K160, separação entre sprinklers de 3×3 m) mostram diferenças notáveis:

Critérios que “fixam” a curva em torno de 1-2 MW podem levar a que apenas se active um único sprinkler, obtendo-se temperaturas moderadas na camada de fumos e boa visibilidade. No entanto, critérios mais exigentes supõem fogos que crescem até vários megawatts e podem chegar a activar o número total de sprinklers da área de design.

Em tais supostos, produz-se uma grande quantidade de fumos, piorando a visibilidade e elevando o risco para a evacuação. Neste exemplo, o fogo baixo da UNE 23585 corresponde a 5 MW e resulta equivalente ao critério da NFPA 204 detendo a curva com o 4º sprinkler. O fogo alto da UNE 23585 é de 12 MW activando mais sprinklers que a área de design da UNE EN 12845.

A experiência internacional sugere que, na maioria dos incêndios controlados por sprinklers, se activam poucos cabeçais. No entanto, quando se realiza uma avaliação de desempenho, procura-se garantir a segurança face a um cenário limite mas realista. Ainda sendo improvável que se chegue a activar toda a área de design de sprinklers, não é impossível que isto suceda sob determinadas condições de carga, combustibilidade, localização do foco, obstruções, interstícios, etc.

SIN DESCARGA DE AGUA (Visibilidad a los 2 m de altura y 300 segundos)

curva de fuego rociadores sin descarga de agua LUND
LUND
curva de fuego rociadores sin descarga de agua iso 16733 1
ISO 16733-1 primer rociador
curva de fuego rociadores sin descarga de agua vtt
VTT

Vista en 3D de los humos

vista en 3d de humos 1
vista en 3d de humos 2
vista en 3d de humos 3

CON DESCARGA DE AGUA (Visibilidad a los 2 m de altura y 300 segundos)

curva de fuego rociadores con descarga de agua nfpa
NFPA 204 4º rociador
curva de fuego rociadores con descarga de agua singapur
SINGAPUR / IFEG 2 anillo / UNE EN 12845

Vista en 3D de los humos

vista en 3d de humos 4
vista en 3d de humos 5

Recomendações finais

1. Avaliar ambos os extremos: um cenário com activação incipiente de poucos sprinklers (que representa a maioria dos incêndios) ou mesmo que o fogo decresce devido à activação dos sprinklers, e outro onde o fogo chega à potência máxima credível que active a área de design do sistema.

2. Incluir a descarga de água na simulação: se se decide deter a curva de HRR ao activarem-se um número de sprinklers, é imprescindível modelar o efeito refrigerante e de arrastamento dos sprinklers prévios.

3. Verificar o impacto na visibilidade e nos níveis de toxicidade: um fogo de maior potência pode gerar fumos mais densos, mesmo que a sua temperatura seja limitada pela acção dos sprinklers.

4. Aplicar a equivalência à UNE EN 12845: resulta coerente equiparar a potência do incêndio de tal maneira que se alcance a densidade e a área de operação dos sprinklers conforme a norma de design.

5. Reforçar a validade dos modelos: usar padrões de descarga e “super-gotas” no FDS ou outros programas permite aproximar o efeito real dos sprinklers. Embora incremente os recursos de computação, é chave para obter conclusões mais fiáveis.

Conclusão

Os estudos de desempenho de controlo de fumos em edifícios com sprinklers automáticos frequentemente ficam-se por um cenário conservador “mas não suficiente”: aquele que assume que o fogo se estabiliza no primeiro ou segundo sprinkler. Esta abordagem, embora seja válida em muitos incêndios reais, não garante cobrir essa fracção minoritária de casos em que o fogo cresce o suficiente para activar múltiplos sprinklers de forma progressiva.

Para ser coerentes com um autêntico “pior caso credível” e não minusvalorizar a produção de fumos, convém analisar o incêndio potencialmente maior que o sistema pode controlar. Em definitivo, o estudo de desempenho que não contemple a máxima hipótese de fogo projectado para a densidade e a área de operação dos sprinklers pode subestimar o risco e, portanto, pôr em perigo a segurança das pessoas e das instalações.

A selecção da curva de fogo adequada e a inclusão do efeito real da descarga de água são chave para um design de SCTEH verdadeiramente robusto. É uma mensagem que os especialistas em engenharia de protecção contra incêndios e os responsáveis de projectos devem considerar para evitar subdimensionar as medidas de segurança nas suas instalações.

Bibliografia resumida

  1. NFPA 204 “Standard for Smoke and Heat Venting”, 2021.
  2. SFPE Handbook of Fire Protection Engineering (5.ª Ed.), 2016.
  3. UNE 23585:2017. “Requisitos e métodos de cálculo e design para projectar um SCTEH em caso de incêndio estacionário”.
  4. UNE EN 12845, “Sistemas de sprinklers automáticos”, 2021.
  5. Nystedt, F. “Verifying Fire Safety Design in Sprinklered Buildings”, Lund University, 2011.